É possível competir com a China no Brasil
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Por Ricardo Ignacio Beltramino
Diretor do Pulso Internacional
I. Concorrência desigual
As preocupações com a concorrência desleal levantadas pelos EUA em relação à China são plenamente aplicáveis ao MERCOSUL, já que o deslocamento dos produtos industriais argentinos no mercado brasileiro pelos produtos chineses, em muitos casos subsidiados, revela-se uma constante, apesar das preferências tarifárias de que nossos produtos desfrutam no MERCOSUL.
Há 20 anos, em 2004, as importações industriais do Brasil provenientes da Argentina superavam as originárias da China. Essa situação mudou substancialmente: as importações chinesas passaram de 7% do mercado brasileiro em 2004 para 20% em 2017, enquanto os produtos argentinos não conseguiram acompanhar o aumento das importações brasileiras e viram sua participação global diminuir. (1)
A China é hoje a principal origem das importações totais do Brasil, com participação de 23,3% em 2023, seguida pelos Estados Unidos, com 15,5%, e a Argentina ficou em quarto lugar, com 4,9%, segundo a FGV e o MRECIC. (2) (3)
II. A exceção do estado brasileiro que confirma a regra
Em 2023, a exceção ao panorama mencionado foi o estado brasileiro do Rio Grande do Sul, onde as exportações argentinas alcançaram 20,7% do total, seguidas pela China, com 13,0%, pelos Estados Unidos, com 10,9%, e pela Argélia, com 10,5%. No gráfico a seguir, vemos que os principais produtos argentinos importados foram automóveis. (4)

III. A comercialização como forma de reverter a falta de competitividade produtiva
Como consequência da pandemia, no início de 2021 o preço dos fretes marítimos internacionais da China com destino à América do Sul havia subido 443% , o que permitiu melhorar a competitividade dos produtos argentinos no Brasil, mas por pouco tempo. As flutuações no preço dos fretes não garantem uma estratégia de longo prazo para enfrentar a concorrência internacional no mercado brasileiro. (5)
A vantagem competitiva dos produtos argentinos no mercado brasileiro pode vir, além da tarifa zero por serem de origem MERCOSUL, de sua qualidade, da entrega rápida, dos menores volumes exigidos e do interesse dos importadores brasileiros em diversificar a origem de seus fornecedores para não ficarem vulneráveis a situações extraordinárias como a pandemia ou a guerra na Ucrânia. Existe também uma questão transversal à maioria dos setores no Brasil, já que nem todos os distribuidores de produtos industriais são importadores. Isso gera uma oportunidade para as empresas argentinas interessadas no mercado brasileiro, mas que exige presença física no Brasil e a nacionalização de mercadorias pelo próprio exportador, o que facilita a comercialização interna e pode ser um diferencial diante da concorrência chinesa.
Referências:
(1) CEPAL 2022 “Las relaciones económicas de la Argentina con China y su impacto sobre una estrategia productiva de largo plazo” Bekerman, Marta Dulcich, Federico Gaite, Pedro. Op. cit. p. 33 repositorio.cepal.org
(2) FGV - Indicador de Comércio Exterior nº 87, 17 de julho de 2024. P. 7 portalibre.fgv.br
(3) Ficha Económica de País (Brasil). MRECIC. Atualização: maio de 2024.
(4) “Principais produtos importados pelo Rio Grande do Sul, por valor e país de origem (2023)”. atlassocioeconomico.rs.gov.br
(5) “ El transporte marítimo durante el COVID-19: por qué se han disparado los fletes de los contenedores” 23-4-2021 unctad.org

Diretor do Pulso Internacional
Advogado especializado em comércio internacional e investimentos produtivos, com mais de 25 anos acompanhando negociações comerciais internacionais como assessor de governos e de empresas em seu processo de internacionalização. No Pulso Internacional analisamos o comércio exterior com clareza e contexto internacional para que sua empresa exporte e invista mais.
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