Mercosul enfrenta campanha de desinformação polonesa sobre o café brasileiro
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Por Ricardo Ignacio Beltramino
Diretor do Pulso Internacional

A Polônia apresentou um recurso de anulação ( C-460/26 R - Polônia/Conselho) perante o Tribunal de Justiça da UE contra o Acordo comercial provisório Mercosul-UE em 10 de maio de 2026, e agora se soma a eurodeputada Ewa Zajaczkowska-Henik, representante de setores conservadores poloneses do partido Conservador Liberal, que vêm desenvolvendo uma ação comunicacional contra o acordo UE-Mercosul. Essas ações evidenciam as estratégias político-comerciais e de imprensa destinadas a sabotar a ratificação definitiva do tratado mediante a instrumentalização de narrativas sanitárias que nada têm a ver com o acordo. A eurodeputada publicou em seu Twitter em 23 de maio de 2026:
Acabam de chegar à Polônia 63 toneladas de grãos de café verde danificados e infestados de insetos vivos procedentes do Brasil! Isso deve ser tornado público. É assim que se vê na prática este acordo patológico com o Mercosul: envenenando as pessoas em nome dos interesses econômicos alemães. Felizmente, este carregamento foi interceptado a tempo em Poznań por uma inspeção da IJHARS (Inspeção de Colheita e Processamento) e a mercadoria contaminada não chegou aos mercados poloneses. Mas temos alguma garantia de que isso acontecerá com cada carregamento defeituoso e de que a eficácia será de 100%? Isso representa uma carga importante para os serviços de inspeção poloneses, que agora enfrentam um novo desafio. Todos esses casos demonstram que cada carregamento procedente do Mercosul deve ser inspecionado, assim como o que vem da Ucrânia. Este acordo é um dos maiores escândalos da história da UE, que afeta diretamente a saúde de todos!

O caso específico do suposto café brasileiro "com vermes" que teria ingressado na Europa aponta o acordo como responsável e constitui o primeiro exemplo documentado dessas táticas, configurando um precedente que ameaça diretamente a consolidação do pacto comercial mais significativo entre ambos os blocos. Como informa a Euronews, a análise técnica demonstra que o carregamento bloqueado na Polônia foi interceptado por controles sanitários ordinários e não tem relação com o acordo UE-Mercosul. Evidentemente, há uma desconexão fundamental entre o incidente e o marco normativo do tratado. Além disso, é importante ter em conta que o café verde brasileiro já entrava na Polônia sem tarifas antes da aplicação provisória do acordo. Em 2024, o Brasil exportou para a Polônia cerca de 60 milhões de dólares em aproximadamente 15.101.100 kg, segundo o Banco Mundial, WITS. Essa condição preexistente demonstra que as desgravações tarifárias estabelecidas no tratado não modificaram substancialmente o fluxo comercial do café verde. O precedente configura um alerta precoce sobre as estratégias que setores protecionistas europeus poderiam desenvolver contra as exportações de carne bovina, soja, mel e outros produtos agrícolas incluídos nas desgravações do acordo, e exigirá estratégias de promoção comercial externa do Mercosul, particularmente no contexto da aplicação provisória do acordo, por meio de um sistema de monitoramento e resposta à desinformação comercial.
Necessidade de adotar estratégias comunicacionais como bloco para defender a produção do Mercosul
A evolução do debate na Polônia e na França, principais países que questionam o acordo Mercosul-UE, durante os próximos meses poderá influenciar a viabilidade política do acordo. Se as narrativas de desinformação conseguirem se consolidar na opinião pública europeia, a ratificação parlamentar enfrentará obstáculos crescentes que poderiam derivar em modificações importantes no texto negociado (como fazem os parlamentares europeus com o Acordo de Turnberry com os Estados Unidos) ou, no cenário mais adverso, no bloqueio definitivo do tratado. Para as empresas argentinas com planos de expansão em mercados europeus, é fundamental desenvolver capacidades próprias de monitoramento das narrativas comerciais e respostas estratégicas às campanhas de desinformação. A experiência polonesa demonstra que os ataques ao acordo não se limitarão a setores específicos, mas buscarão erodir a confiança geral nos produtos sul-americanos.
A difusão de incidentes sanitários ordinários, como o café brasileiro interceptado na Polônia, usados como pretexto, representa apenas o primeiro capítulo de uma estratégia mais ampla de sabotagem político-comercial contra o acordo UE-Mercosul. A capacidade do bloco sul-americano de antecipar, monitorar e contrarrestar essas narrativas falsas determinará não apenas a ratificação do tratado, mas também a preservação da competitividade exportadora da região em um de seus mercados mais estratégicos. A resposta coordenada do Mercosul a esta primeira campanha de desinformação estabelecerá precedentes fundamentais para enfrentar futuras ondas de resistência protecionista europeia.
Fontes
1) "The Cube: O acordo UE-Mercosul permite importar para a Europa café brasileiro com vermes?"
Euronews — O acordo UE-Mercosul permite importar para a Europa café brasileiro com vermes 28 de maio de 2026
2) "Barreiras iminentes à exportação de mel argentino para a União Europeia" - 9 de maio de 2026 - Ricardo Beltramino - Pulso Internacional

Diretor do Pulso Internacional
Advogado especializado em comércio internacional e investimentos produtivos, com mais de 25 anos acompanhando negociações comerciais internacionais como assessor de governos e de empresas em seu processo de internacionalização. No Pulso Internacional analisamos o comércio exterior com clareza e contexto internacional para que sua empresa exporte e invista mais.
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