Santa Fe subsidia a produção de carros chineses (na China)
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Por Ricardo Ignacio Beltramino
Diretor do Pulso Internacional

Em 2024, alertamos que haveria um desembarque silencioso dos automóveis elétricos chineses na região. Este ano, também destacamos que as vendas na China caíram 30% na comparação anual no caso da BYD, a montadora de automóveis elétricos mais importante da China, para pouco mais de 210.000 unidades, mas suas exportações subiram. De fato, a BYD exportou 100.482 veículos elétricos em janeiro de 2026, 51,47% a mais que no mesmo mês do ano anterior, e a Argentina se apresenta como novo destino estratégico para essa empresa.

Ao mesmo tempo, as importações de produtos chineses na Argentina cresceram em 2025, segundo o INDEC, 54% a mais que em 2024, num total de US$ 17,94 bilhões, e isso se evidencia na crescente preocupação em competir com os produtos importados entre os industriais argentinos, que, segundo uma pesquisa da União Industrial Argentina (UIA) de março de 2026, chega a 19,4%.

Foto: BYD
Subsidiando a China
Como se todo esse panorama não bastasse, agora a Província de Santa Fe subsidia a produção de carros chineses, na China, já que decidiu dar uma mão ao país asiático subsidiando a compra de automóveis dessa origem ao isentar do pagamento do IPVA (patentes) os veículos elétricos registrados na província por 5 anos. Isso configura um mecanismo de subsídio indireto às importações de veículos elétricos principalmente chineses e favorece exclusivamente os setores de maior renda, evidenciando uma total falta de política produtiva ativa que atraia investimentos estrangeiros diretos no setor e que fomente a produção e o emprego, bem como uma notória falta de equidade tributária.
Marco regulatório e alcance da isenção fiscal
Há oito anos, o governo de Santa Fe estabeleceu a Lei 13.781 e seu decreto regulamentar 3124/2019 para estimular a fabricação de automóveis elétricos dentro do que o governo pomposamente denomina "política de Estado de mobilidade sustentável ", que busca consolidar a transição para tecnologias mais limpas. Em oito anos, não se avançou nas premissas de produção nem de novos investimentos, mas concede-se aos importadores de carros elétricos uma isenção tributária que é aproveitada pelos consumidores de alta renda diante da invasão de carros elétricos importados. O principal objetivo dessa renúncia fiscal provincial é favorecer diretamente o proprietário do veículo, reduzindo significativamente os custos anuais de posse por 5 anos, mas, ao fazê-lo, prejudica o restante da população, que não tem acesso a esse subsídio, mas contribui com seus impostos para sustentá-lo. Na Argentina não se fabricam veículos elétricos, de modo que o benefício recai exclusivamente sobre produtos importados, convertendo a isenção num absurdo subsídio encoberto à importação, particularmente de unidades provenientes da China, que domina a oferta mundial de veículos elétricos. Essa política se alinha à do Estado nacional, que estabeleceu uma cota de 50.000 automóveis anuais isentos das tarifas de 35%.
Impacto setorial e distorções competitivas
A medida gera assimetrias regulatórias que afetam a competitividade do setor automotivo nacional e provincial (a General Motors tem uma fábrica em Santa Fe). Enquanto a indústria argentina de automóveis e autopeças sofre pressões inflacionárias e desafios de reconversão tecnológica, os veículos importados obtêm vantagens fiscais adicionais que ampliam a diferença de preços finais. A política fiscal provincial contrasta com as tendências globais de proteção de indústrias estratégicas, já que, enquanto os Estados Unidos implementam tarifas específicas sobre veículos elétricos chineses, a União Europeia avalia medidas compensatórias por subsídios estatais e o Brasil atrai investimentos de montadoras chinesas, Santa Fe dá de presente seus recursos sem nada em troca.
Perspectivas de consolidação e riscos estratégicos
Em 2022, foram emplacados em Santa Fe 500 veículos, mas só no primeiro trimestre de 2026 já foram emplacados mais de 800 veículos, com a projeção de chegar a 3000 unidades este ano, o que demonstra uma curva ascendente que tende a se consolidar e implica um risco estratégico, já que consolida padrões de dependência tecnológica externa. A ausência de contrapartidas em termos de investimento local, de transferência tecnológica ou de desenvolvimento de fornecedores nacionais converte a isenção num subsídio à produção de carros chineses na China sem retorno produtivo e numa medida tributariamente iníqua. Essa lesiva política fiscal provincial exige uma reconsideração integral que proteja as capacidades industriais provinciais, condicionando os benefícios fiscais a contrapartidas de desenvolvimento local.
Fontes

Diretor do Pulso Internacional
Advogado especializado em comércio internacional e investimentos produtivos, com mais de 25 anos acompanhando negociações comerciais internacionais como assessor de governos e de empresas em seu processo de internacionalização. No Pulso Internacional analisamos o comércio exterior com clareza e contexto internacional para que sua empresa exporte e invista mais.
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