Solicitar assessoria
    Comércio Internacional

    As tarifas de Trump custaram quase US$ 10 bilhões a municípios exportadores do Brasil e geram turbulência política em Iowa

    19 de outubro de 2026· 8 min de leitura

    Tradução do original em espanhol. Ler o original

    Ricardo Ignacio Beltramino

    Por

    Diretor do Pulso Internacional

    As tarifas de Trump custaram quase US$ 10 bilhões a municípios exportadores do Brasil e geram turbulência política em Iowa
    Imagem ilustrativa · Pulso Internacional

    Um dano que não aparece nos totais, mas aparece nos territórios

    O Brasil registrou um crescimento de US$ 31,8 bilhões em suas exportações nos doze meses encerrados em julho de 2026, o que pode ser lido como um sinal de adaptação diante da política tarifária e das sanções do governo Trump que afetaram diretamente o Brasil. No entanto, por trás do número consolidado esconde-se a incidência geográfica do dano que os totais nacionais não explicitam, a saber: os municípios produtores que perderam seu principal mercado de destino e os setores que levaram mais de um ano para recuperar sua participação, além de um sinal político que agora repercute de Iowa a Minas Gerais.

    Fonte: CNM Brasil

    Um estudo publicado em 19 de outubro de 2026 pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) quantifica o problema: dos 1.643 municípios brasileiros que mantiveram relações comerciais com os Estados Unidos nos últimos dois anos, mais da metade, 864 localidades, registrou uma queda média de 30% no valor de suas exportações ao mercado norte-americano em relação ao período anterior. A perda acumulada de receita de exportação chega a US$ 9,7 bilhões. Em outros 271 municípios, as exportações aos Estados Unidos caíram a zero, partindo de embarques que anteriormente somavam US$ 104 milhões.

    As cinco categorias de produtos mais afetadas em nível nacional são a madeira de coníferas, outros açúcares de cana, produtos semiacabados de ferro e aço, sebo bovino, e portas com seus batentes: um mapa que ilustra quão profundamente integrada estava a cadeia exportadora brasileira ao mercado norte-americano, e quão seletiva foi a política tarifária de Washington ao atingi-la.

    Os 5 principais produtos afetados pelas tarifas mais altas nas exportações aos EUA

    Fonte/CNM Brasil

    Municípios brasileiros afetados pelas tarifas dos EUA
    Impacto comercial 2025–2026 sobre exportadores com vínculos com os Estados Unidos
    1.643
    Municípios exportadores
    Total com relações comerciais com os EUA
    69,1%
    Municípios afetados
    Do total exportador sofreu algum impacto das tarifas.
    864
    Queda superior a 30%
    52,6% dos municípios com vínculos comerciais registraram queda média de 30%.
    271
    Exportações zeradas
    16,5% dos municípios viram suas vendas aos EUA reduzidas completamente a zero.
    Fonte: Confederação Nacional de Municípios do Brasil (CNM), outubro de 2026.

    A CNM identifica São João da Barra, no estado do Rio de Janeiro, como o município com as maiores perdas individuais: US$ 590 milhões em queda da receita de exportação, concentrados em combustíveis, óleos minerais e produtos de destilação. Em Araraquara, estado de São Paulo, o golpe foi sentido nas exportações hortícolas. Em Guaxupé, Minas Gerais, o café foi o principal motivo do dano. Este pequeno município de pouco mais de 50.000 habitantes é o segundo maior exportador de café do Brasil e possui a maior cooperativa de cafeicultores do país. É justamente o estado de Minas Gerais o que tem mais municípios afetados, com um total de 251. O café, no passado, como comentamos em nosso artigo anterior, teve influência na estabilidade democrática do Brasil; a instabilidade atual prenuncia mudanças no comando do governo federal.

    O café: um mercado que não espera

    Entre os setores mais castigados, o cafeeiro merece uma análise particular. Em agosto de 2025, o governo Trump impôs tarifas de 50% sobre o café e os produtos de café de origem brasileira, um nível que praticamente anulou a competitividade do produto no mercado norte-americano por mais de um ano. Em novembro do mesmo ano, foi habilitada uma lista de isenções que abrangia café torrado e não torrado, descafeinado ou não, cascas e sucedâneos que contivessem café; mas a incerteza regulatória já havia desencadeado o processo de substituição de origem por parte dos compradores norte-americanos. Marcos Matos, diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), citado pelo Valor Internacional, descreveu isso em termos precisos:

    «Embora a Europa e a Ásia ocupem posições de destaque no comércio de café, a parceria comercial do Brasil com os Estados Unidos existe há décadas, o que torna difícil abandonar esse mercado. Desde que os Estados Unidos impuseram as tarifas de 50% em agosto do ano passado, o setor vem correndo contra o tempo para revertê-las.»

    A preocupação de Matos apontava para um risco estrutural que os economistas chamam de histerese comercial: a perda de participação de mercado que persiste mesmo depois que o instrumento que a gerou — neste caso, a tarifa — é eliminado. Em julho de 2026, as autoridades norte-americanas revogaram as tarifas adicionais sobre todos os tipos de café, mas a pergunta que se impõe é se os compradores norte-americanos, habituados por mais de um ano a variedades de outras origens, voltarão a posicionar o café brasileiro com a mesma preferência de antes. Na UE, o café brasileiro também foi questionado por legisladores poloneses. O mercado, diferentemente dos instrumentos regulatórios, não se reverte por decreto.

    Iowa: quando o dano tarifário se converte em capital eleitoral democrata

    O fenômeno não é exclusivamente brasileiro. A menos de três semanas das eleições legislativas de 3 de novembro nos Estados Unidos, o estado de Iowa (coração agrícola do país, líder na produção de milho e soja) mostra sinais de um deslocamento eleitoral sem precedentes na última década. Matt Russell, diretor-executivo do Sindicato dos Agricultores de Iowa, confirmou à Agência EFE o que as pesquisas vêm antecipando:

    «Os moradores das zonas rurais de Iowa estão cada vez mais interessados em votar nos democratas, mais do que estiveram na última década. Estamos vendo uma virada de volta para um estado mais roxo? Está claro que estamos indo nessa direção.»

    Russell atribui a situação a uma combinação de fatores: a alta dos combustíveis vinculada ao conflito no Irã e, de maneira central, a política tarifária da Casa Branca. Seu diagnóstico é contundente: «Eu diria que é uma das piores recessões em décadas, e grande parte dela não se deveu apenas a ciclos econômicos naturais ou a questões relacionadas ao clima. Foi resultado de decisões políticas, sobretudo vindas do governo.» As pesquisas indicam que os democratas poderiam obter até três cadeiras na Câmara dos Representantes, uma no Senado e o governo estadual de Iowa, um resultado que teria sido impensável, dado que o estado apoiou Trump nas três últimas eleições presidenciais.

    A mecânica do dano fica clara no depoimento de Ryan Marquardt, agricultor de quinta geração: as tarifas deprimiram o preço de venda do milho, da soja e do gado, enquanto os custos dos insumos — fertilizantes, diesel — permaneceram elevados ou continuaram subindo. A margem operacional do produtor rural foi comprimida pelas duas pontas simultaneamente.

    O paradoxo político no Brasil e a variável Bolsonaro

    Um levantamento do panorama eleitoral agrícola brasileiro mostra que o setor agropecuário mantém uma adesão majoritária a Jair Bolsonaro mesmo em contextos de dano tarifário direto. Em oito dos dez principais municípios agrícolas por valor de produção, Bolsonaro venceu Lula; em Flores da Cunha, a principal região vitivinícola do país, 79% dos eleitores optaram pelo candidato de direita. A racionalidade do produtor agrícola bolsonarista diante das tarifas de Trump é reveladora: Christian Rancan, viticultor de 26 anos e vereador local, sintetizou com pragmatismo: «Bolsonaro tem mais chances de reverter a tarifa porque é mais próximo de Trump.». A experiência do café mostra que nem mesmo a revogação formal de uma tarifa garante a recuperação do mercado perdido.

    A tensão se aprofunda em outra frente: o acordo MERCOSUL-União Europeia, assinado em janeiro de 2026 e que elimina as tarifas sobre o vinho europeu em um prazo de dez anos, gera alarme entre os viticultores do Rio Grande do Sul, que percebem que a liberalização comercial promovida por Lula os expõe à concorrência europeia sem oferecer-lhes compensação equivalente no mercado norte-americano, e uma carga tributária de 40 % os faz perder competitividade nas exportações.

    Setores brasileiros afetados pelas tarifas dos EUA
    Principais setores sob medidas tarifárias norte-americanas (2025–2026)
    Tarifa revogada
    Café 50 % — Revogada jul. 2026
    Tarifas vigentes
    Madeira de coníferas Vigente
    Ferro e aço Vigente
    Açúcares de cana Vigente
    Produtos hortícolas Vigente
    O café foi o único setor com tarifa explícita de 50 %, posteriormente revogada em julho de 2026.

    Fonte: Elaboração própria com base em CNM

    O dano territorial nos municípios documentado pelos dados da CNM evidencia que uma política tarifária mantida por mais de doze meses pode reconfigurar permanentemente as cadeias de valor regionais. Para os exportadores argentinos de produtos com alta exposição ao mercado norte-americano; óleos, biodiesel, manufaturas de origem industrial, a experiência brasileira exemplifica o tipo de dano estrutural que pode ocorrer mesmo quando os volumes globais crescem. É fundamental poder diversificar destinos e fortalecer a oferta exportável para mercados alternativos, mas isso exige decisões de política comercial coordenadas entre a chancelaria, as câmaras setoriais e os governos provinciais antes que o padrão brasileiro se repita em outros parceiros do bloco.

    Fontes

    1. Valor Internacional — Trump tariffs hit Brazilian cities despite export growth (19 de outubro de 2026)
    2. Agência EFE — Trump, diésel, aranceles… el voto rural de Iowa empieza a apuntar hacia los demócratas (19 de outubro de 2026)
    3. ABC Paraguay — Bolsonaro cosecha el apoyo del sector agrícola pese a los aranceles de Trump (19 de outubro de 2026)
    Ricardo Ignacio Beltramino

    Diretor do Pulso Internacional

    Advogado especializado em comércio internacional e investimentos produtivos, com mais de 25 anos acompanhando negociações comerciais internacionais como assessor de governos e de empresas em seu processo de internacionalização. No Pulso Internacional analisamos o comércio exterior com clareza e contexto internacional para que sua empresa exporte e invista mais.

    Análises relacionadas